Romance de deformação

A fúria – em sua forma substantiva (p. 14, 17, 18, 33, 54, 112, 134), adjetiva (p. 18, 46, 48, 53, 91) ou adverbial (p. 103) – é talvez a personagem de maior presença em Os tais caquinhos (Companhia das Letras, 2021), primeiro romance de Natércia Pontes. A narradora do livro, Abigail, divide com a irmã, Berta, o pai, Lúcio, e “dóceis insetos de patinhas serrilhadas” (p. 10) um apartamento onde a “louça” é “desencontrada”, “os quadros” estão “sempre por ser pendurados”, “as panelas” exibem “depressões, nódoas pretas, tampas avulsas e cabos soltos” e “uma camada de gordura” recobre a “superfície dos poucos móveis” (p. 12).

Da geladeira sai “um vapor frio e sulforoso”, provavelmente de um “iogurte estragado” ou de uma “bandeja de presunto – as bordas das faixas se enroscavam e enegreciam, manchas brancas de fungo tomavam a carne rósea e cresciam como espuma, pequenos conglomerados de algodão” (p. 12). Isso, claro, quando há comida, já que as garotas na maioria das vezes têm de se contentar com apenas uma refeição ao dia e com os ovos que lhes dão as vizinhas.

Esse “submundo pegajoso” (p. 21) que abraça a adolescência das duas irmãs anima a raiva, o ódio, o mau humor – uma “ira existencial” (p. 10) que ameaça as baratas e guarda a narrativa num embrulho de rancor, ao lado de uma “montanha de livros, resmas, apostilas, potes de lápis sem ponta, canetas com tinta ressecada, furadores de papel, grampeadores, caixas de clipes abarrotados de cartuchos enferrujados, caixas de sapatos repletas de objetos, compassos, réguas de diversos tamanhos e cores, tesouras preservadas em suas embalagens e uma fina camada de poeira e maresia” (p. 14).

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Da mesma maneira que os personagens acumulam montões de tralha – em particular Lúcio (“Filha, não jogue as minhas coisas fora”, ele diz, “Eu imploro. Nelas eu guardo a minha vida inteira”, p. 103) –, acumulam-se no texto pilhas e pilhas de palavras. A listagem aparece em Os tais caquinhos destacada como procedimento literário (1) a nível local, na descrição de ambientes e na construção de cenas, em que (semelhantemente ao excepcional As coisas, de Georges Perec) os paralelismos sequenciam zilhões de miudezas materiais e mentais – conferindo ao diminutivo do título uma chave aumentativa de leitura –, e (2) a nível global, na própria constituição de uma obra segmentada, na qual os fragmentos (os caquinhos), embora estejam submetidos a alguma totalidade – um fiozinho de trama –, têm autonomia, são desmontáveis, podem ser desarranjados e recosturados segundo as linhas interpretativas do leitor. O que, no entanto, não desmantela o romance. Ao contrário: para um enredo famélico, essa parece ser a única estrutura possível – e aí é que se vê a sensibilidade técnica de Natércia Pontes, que deforma o Bildungsroman (gênero mutante) para fazê-lo atender a seu projeto estético estilhaçado. Personagens frágeis como Lúcio, Berta e Abigail – cindidos em meio a “hormônios, umidade, calor, desamparo logístico, sujeira, incompreensão sobre a vida, pó sobre os talheres, perna solta de barata incrustada no sabonete ressecado” (p. 17) – demandam uma forma frágil, com capítulos curtos, passagens às vezes desconexas, exposições pormenorizadas que não respondem a nenhuma finalidade aparente. É na debilidade que está a força do livro.

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O acúmulo de palavras não é novidade na prosa de Natércia Pontes. Nos contos de seu livro anterior, Copacabana Dreams (Cosac Naify, 2012), a exploração artificiosa da linguagem funcionava como mecanismo de fundação de uma Copacabana quase mítica, sitiada pela atmosfera de fato dreamy de domadores de tigres, anões de isopor, passeios de cavalo e manequins sem cabeça. Em Os tais caquinhos, essa opção estilística é acentuada com usos lexicais pouco comuns (“pernoca”, p. 13; “muquirana”, p. 40), adjetivações por vezes improváveis (“cumplicidade gelatinosa”, p. 13), concentração em detalhes carnudos de tão verossímeis (“Zoma fazia carinho em nossas cutículas”, p. 137), associações bizarras (“cheirava remotamente a papagaio”, p. 57), comparações inesperadas (“calado como um sabonete”, p. 101) e até emprego de gêneros diversos (bilhetes, cartas, páginas de diário, listas etc.). Funda-se agora uma “fortaleza suja” (p. 125), um microcosmo delirante dentro de uma cidade em que, no litoral, “uma galeria de drenagem” deságua “esgoto” (p. 74). Essa bricolagem verbal em tudo tem a ver com a forma espatifada do romance, em que nada pode ser afirmado de modo unívoco pois nada encontra alicerce sólido. E, mesmo quando encontra, a essa altura já sabemos: tudo que é sólido desmancha no mar.

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Zoma partiu levando consigo Huga e Ariel. Não entendemos muito bem quem elas são nem por que partiram. E não importa. O fato é que um casamento de dez anos acabou. Restaram “duas cabras e Lúcio” “sob o teto de estalactites” (p. 137) de um 402 partido.

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Duas são as maiores lições de Lúcio. Primeira: filhinha, é muito bom sentir fome. Segunda: cultive “o pensamento livre, sem muitas certezas” (p. 29). O pai, que ao chegar em casa se dedica ao “ritual” de conferir “a mangueira do gás na cozinha” e “fechar as janelas deixando somente uma fresta” (p. 14), gosta da rua e nela fica o tempo que for possível, “até o galo cantar e o sol subir” (p. 11). É talvez desatento, mas nunca deixa de ser amoroso. E em seus bilhetes traça observações como: “Filha, procure fazer o que as pessoas que cuidam de você gostam que você faça. Vamos lembrar algumas. Acordar, escovar os dentes, tomar banho, mudar a roupa, ir ao colégio, almoçar, fazer os deveres, dormir cedo etc. etc. É muita coisa, mas as pessoas também fazem muitas coisas, além de quase tudo isso que você deve fazer, elas trabalham e cuidam das outras crianças além de você. É muita coisa, mas a gente brinca e tem os domingos e a TV. Viva a Xuxa e mais beijos do papai” (p. 49). Outro exemplo: “Abigail”, ele escreve, “eu confio em você. E admiro muito seu modo de pensar e se expressar. Eu também tenho os mesmos sentimentos em relação ao colégio, professores e colegas seus, orientadores etc. Os motivos são diversos e eu os admiro muito pela diversidade que me apresentam. A semelhança repetitiva é monótona. Aproveite a diversidade. É admirável. Mas faça como achar melhor. Vá pelo seu coração e não deixe de consultar a cabeça. Um beijo do Lúcio que lhe ama também” (p. 95).

Salta aos olhos a relação de identidade que o pai compartilha com a filha. Não há hierarquia clara. As ordens (ordens?) se apresentam mais como sugestões (“procure fazer”; “faça como achar melhor”), conselhos trocados entre amigos que, em igual pindaíba, dividem no bar “uma tulipa de chope suada e pela metade” (p. 12).

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“Abigail, Lúcio ajeitou-se com dificuldade sobre o colchão. Procurou sentar-se, mas suas pernas eram grandes e rijas. Finalmente se acomodou sentado à beirada da cama. Abigail, repetiu depois de um longo suspiro, os olhos voltados para os meus pés impacientes. Você é dona da sua vida. Desde o momento em que você quis ser, você foi. Mas, escute, filha. Eu posso também ser seu amigo. Você pode contar comigo, sempre. Eu já vivi alguns anos, você sabe. Eu posso até dizer que conheço um pouco da vida. Então, me escute, Abigail. Eu posso ajudar você, se você quiser aceitar a minha ajuda. O que eu mais quero na vida é poder ajudar vocês, minhas filhas. Eu posso antecipar armadilhas, sugerir caminhos e dizer coisas que talvez possam tornar a sua vida melhor. Muito melhor do que a minha. Filha, coopere. Vá ao médico. Eu vou com você. Vai ser bom. (Fiz um muxoxo antipático.) Tá. Eu vou marcar a consulta para a próxima semana. Prometo. Próxima semana? Lúcio arregalou os olhos, consternado. Encarei-o e estudei os bolsões de gordura sob seus olhos tristes. Os vincos paralelos que saíam do nariz vermelho não encontravam resistência nos lábios murchos e desaguavam no queixo. Baixei o olhar e mudei bruscamente de assunto. Você pode ou não amarrar meu biquíni?” (p. 112-113).

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A ausência de ordem alimenta cumplicidade e desagregação: Abigail, Berta e Lúcio estão nivelados no mesmo patamar de caos físico e psicológico. As duas irmãs – bastante distintas, aliás, já que Berta encontra abrigo na casa de uma amiga, Mariana – afloram para a vida sem orientações muito nítidas (“Embora entendesse de uma maneira intuitiva e nada palpável o que Lúcio queria nos dizer com isso”, p. 29), o que lhes dá a um só tempo tremenda autonomia e faminto desamparo. Lúcio, em contrapartida, não manifesta capacidade de administrar o amadurecimento das filhas pois ele mesmo, no auge da suposta maturidade, parece ainda não ter encontrado respostas para as perguntas que as meninas começam a se fazer. O pai, na realidade, “diante de qualquer tipo de frustração ou quebra de expectativa”, urra “eu quero a morte!” e pergunta “a Deus com insistência e fúria por que a morte não me vem?” (p. 33). Essa tragicidade – sem dúvida cômica – é possivelmente a expressão máxima da interioridade de alguém que, titubeante em relação à vida, vive no limite da morte. Mas não vale morrer.

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E tá errado?, pergunta-nos o romance. Essa, a meu ver, é uma das principais questões de Os tais caquinhos. O apartamento 402 é rodeado por uma “casa grande” de “quintal úmido”, “lavado com fortes jatos de mangueira pela empregada magra”, por “outra casa sem muros, em cujas paredes” crescem “unhas-de-gato lenhosas”, e por um “condomínio grã-fino, cuspindo varandas helicoidais, recheadas de samambaias”. “Lá fora”, completa a narradora, “tudo parecia estar em ordem” (p. 12).

Apesar de não serem pobres, Abigail, Berta e Lúcio levam uma vida que contrasta com aquela conduzida pela ideologia do dinheiro. A exterioridade de um mundo colonizado pelo imaginário burguês (ou, no caso específico do livro, pequeno-burguês), com sua moralzinha de sala de jantar, intensifica os dilemas interiores dos personagens, que experimentam a sensação de deslocamento não apenas em função de fatos pessoais, mas também devido a coerções sociais que predispõem papéis aos quais eles não se adéquam (“aquele jeito de viver não tinha nome”, p. 104). Não por acaso assinala-se num dado trecho o modo como “os vizinhos” fazem comentários “à boca pequena durante o galopante trajeto do elevador e depois” se despedem “com olhares de reprovação, sentindo-se profundamente civilizados” (p. 42).

E tá errado?, pergunta-nos o romance. Errado num tá. O que também não quer dizer que esteja certo. Cultive o pensamento livre, filhinha, sem muitas certezas.

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Natércia Pontes reconstrói os anos 1990 sobretudo a partir de signos da cultura pop. Um pop um tanto torto, porém: sem grana, feito da mistura entre mainstream e underground, brega e chique, nacional e estrangeiro – tudo amontoado nos subsolos de uma Fortaleza jamais tematizada explicitamente (por que não, aliás?). Um painel meio cubista surge então da colagem entre a revista Capricho (p. 18) e o Napalm Death (p. 45), a lancheira da Hello Kitty (p. 30) e a sunga Zorba (p. 35), o boneco Ken (p. 30) e o Faith No More (p. 134), a 51, o Sprite, o loló (p. 44) e o Drummond (p. 71), o carnaval na praia (p. 55) e o Sepultura (p. 123). E no meio desse quadro uma única cor descreve um arco comum: as canções de Marina Lima, que ecoam do quarto de Berta. “Virgem”, “Grávida” e “Pra começar” (cujos primeiros e últimos versos costuram o romance e lhe atribuem o título) funcionam em Os tais caquinhos de maneira semelhante a “Joia” em Copacabana Dreams. Se a letra “louca total e completamente louca” de Caetano dava o tom daqueles contos, aqui as palavras de Antonio Cicero anunciam a destruição que faz com que “tudo caia, pois tudo raia”.

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“Querido diário”, escreve Abigail, “eu estou com medo de crescer. Essa frase é patética, mas é pura verdade” (p. 39).

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A fúria não vem sozinha no livro de Natércia Pontes. Ela é antes ciceroneada pelo riso: “risos nervosos entremeados por explosões de gargalhadas” (p. 121), “gargalhadas medonhas” (p. 56), “de molhar os olhos” e “bater nas coxas” (p. 135). Pois, apesar da fome onírica, há entre Abigail, Berta e Lúcio “uma ligação forte” que os une, “um sentimento bruto de família, uma cumplicidade gelatinosa” que os protege “como uma placenta” (p. 13), aquele “velho silêncio” que confirma a “proximidade”, a “vida cúmplice, mesmo que na maior parte do tempo” eles se comportem “como frios inimigos debaixo de um teto recoberto de bolor” (p. 96).

Esse ódio tão querido, esse amor detestável, é o que através da linguagem dá uma concretude repugnante ao texto, deformando seus personagens e, por isso mesmo, tornando-os mais humanos. O resultado é quase um antirromance – um pedaço de vida encontrado num baú centenário –, que, para por fim se afirmar serelepe em sua negatividade, encontra como conclusão a própria renúncia das palavras, “um sonoro” – e hilário – “shhhhh”. E a gente termina como? Só o caco.

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